O meu curso de Escrita Criativa

Tudo começa numa folha branca e num conjunto de palavras várias que unidas pela criatividade, em apenas 7 minutos, se transformam em algo único que nunca ninguém escreveu.

Comecei este curso por escrever 4 palavras: saudade, caneta, tempo e relógio. Escolhi uma: saudade. Com ela escrevi uma frase numa folha branca sobre aquela mesa rectangular, na EscreverEscrever, no último piso do nº47 da Rua do Alecrim.

Depois vieram os desafios mais complicados: descrever vários cenários, espaços diferentes, sensações. Fazer borbulhar os cinco sentidos.

E os objectos? Também eles têm histórias. Tocar numa chave e senti-la. Depois, imaginar a sua história. Pegar num folha branca e em sete minutos… Escrever:

Naquela noite em que tudo parecia calmo, o capitão Trendy reunia os seus assessores nos aposentos da nau New Hope. A viagem tinha, até então, corrido sem qualquer situação inesperada. Mas um forte abanão fez cair os seus homens e os objectos que se encontravam nas estantes e na mesa. Começou a ouvir-se gritos no exterior:
– Capitão! Capitão!
Trendy levantou-se e ajudou os seus homens. Um estava inconsciente debaixo de uma estante enquanto os outros pareciam algo atordoados com o que tinha acabado de acontecer. Garantido que os seus homens estavam bem e que podiam apoiar o colega, Trendy abriu a porta dos aposentos e deparou-se com o inferno. A nau estava a ser atacada por piratas. As velas já ardiam , os seus homens estavam a perder a luta. Trendy não teve reacção durante uma dúzia de segundos. Mas era preciso salvar o segredo. Após retornar à realidade, entrou novamente nos aposentos e colocou a chave que tinha no bolso dentro de uma garrafa. Na mesma inseriu uma folha com o número 1600 New Hope. Voltou ao exterior e atirou a garrafa ao mar.
Certo dia, enquanto o João passeava na praia encontrou entre as rochas uma garrafa. Ao abrir deparou-se no seu interior com uma chave e um manuscrito velho no qual estava escrito: 1600 New Hope.

E como é imaginar um objecto a contar a sua história? Escolhi uma caixa de fósforos.

Vivia no bolso de um homem e cada vez que ele me usava tirava-me uma vida. Luz que se acendia, vida que acabava. Por mais que tentasse não conseguia proteger os meus filhos. Cada vez que ele me fechava sentia em mim a esperança de ser a última vez.
Certo dia ele pousou-me em cima da mesa do café da forma desprezável que tanto o caracterizava. Puxou do cigarro que enrolara na noite anterior e, com os seus dedos amarelados e já secos do fumo do tabaco, abriu-me e levou-me um dos meus filhos. Quando deu o primeiro bafo naquele cigarro o dono do café expulsou-o violentamente:
– Sai daqui velho! Não podes fumar aqui, não lês as regras?!
Foi tal a rapidez com que saiu que me deixou só em cima daquela mesa. Por ali fiquei umas horas. Uns desviavam-me, outros abriam-me. Eu suspirava, tremia e pensava: “o que será de mim?!”.
Hoje estou dentro de uma caixa grande onde estão também muitos outros objectos. Sou escolhida entre baralhos de cartas, brincos e colares. Apesar da primeira vez não ter sido a melhor experiência, hoje anseio por ser sempre a escolhida para contar a minha história. Uma história que começou trágica, onde perdi alguns filhos, onde alguém me encontrou, me apreciou e sentiu que eu seria especial para poder dar vida à criatividade das pessoas. 

As histórias não existem sem personagens. Naquelas muitas aulas inventei o Carménio Silva e a Anabela Roque Simões. O primeiro era engenheiro civil, divorciado e pai de três filhos. Num momento da sua vida foi acusado de violência doméstica. A Anabela Roque Simões tinha quarenta anos e era empregada de balcão numa loja na baixa de Lisboa. Era uma pessoa tímida e nos últimos tempos refugiava-se em casa sozinha longe dos amigos e da família.

Com estas personagens contei várias histórias. Um dia voltarei a dar-lhes vida.

Mas entre tantos outros desafios, binómios fantásticos, frases do dia, reflexões, canecas de chá quente com bolachas Maria, partilha de histórias e experiências, cheguei ao fim de uma jornada de várias semanas. Construí a minha história final e partilhei-a na última aula. Agora posso partilhá-la aqui:

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UMA HISTÓRIA DE HISTÓRIAS

Todos os dias de manhã, sentada na cadeira de baloiço junto à porta da entrada ela apreciava o seu jardim silenciosamente. Por vezes sorria e até gargalhava, mas outras vezes a tristeza inundava-a, tais eram as lágrimas grossas que lhe escorriam pela face enrugada. Quando chorava com as suas recordações e sempre que alguém passava do outro lado da rua tentava disfarçar, pois não suportava que lhe fizessem perguntas.

Na pequena e pacata aldeia alentejana de Senhorio das Vinhas vivia a Sra. Matilde, viúva do Dr. Verde Montes, médico e ex-presidente da junta de freguesia. Reformada do ensino, vivia sozinha numa casa modesta, recentemente remodelada e com um pequeno jardim frontal de árvores perenes suportadas por um roseiral que, na Primavera, dava as boas-vindas aos poucos que a visitavam e a si contavam-lhe histórias que a faziam recordar o seu passado.

Num dos dias em que Matilde estava timidamente a chorar sentada na sua cadeira, o João  passou, olhou e parou. Sem que ela o vislumbrasse, o rapaz olhou-a largos minutos, parado, na indecisão de continuar o seu caminho ou dar a mão àquela mulher. Após hesitar vezes sem fim, deslocou-se devagarinho, com os seus ainda pequenos pés em direcção da Sra. Matilde e, nesse instante, ela deu pela sua presença, limpando rapidamente as lágrimas da face.

                – Que se passa, Sra. Matilde?

Matilde conhecia o João desde o berço. O rapaz pequeno e franzino tinha hoje 13 anos e era filho da D. Alzira, a dona da única mercearia da aldeia. Era costume a Sra. Matilde ver o João passar todos os dias à sua porta, apesar do rapaz nunca lhe ter dado a mínima importância pois passava a correr para apanhar o autocarro ou passava na galhofa com os amigos.

                – Oh! Meu querido, não se passa nada. São as histórias da minha vida que recordo com nostalgia. O meu Zé Pedro, a minha escola, a minha cadela Zica. É todo um passado de recordações e de memórias. Tenho tantas histórias…

João olhava a Sra. Matilde seriamente. Não conseguia imaginar a quantidade de histórias que ela teria para contar. Afinal, ele com 13 anos também já tinha muitas. Tinha as histórias da família, dos amigos, da escola e até histórias do Zé do Pipo, seu vizinho, que ao final do dia chegava a casa sempre embriagado passando vários quartos de hora a tentar encaixar a chave na fechadura enquanto lhe lançava alguns impropérios. Mas as histórias que mais recordava eram aquelas que o seu avô lhe contava quando ele ia passar férias à quinta que ficava perto da fronteira com Espanha.

                – Sabe Sra. Matilde, o meu avô também tinha muitas histórias e eu herdei-as dele. Somo às minhas as que ele me contava.

Matilde olhava sorridente para o João. Desde os tempos da escola que a ex-professora não convivia com crianças de forma tão próxima. E a maneira tão natural como aquela criatura inocente se aproximou dela fê-la, por momentos, regressar aos tempos em que era professora e que ensinava e aprendia com os seus alunos com uma extraordinária força natural de crescimento contínuo.

                – E que histórias eram essas? – perguntou a Sra. Matilde com uma expressão de curiosidade gritante que surpreendeu João, por rápidos instantes. E sorrindo, entrelaçou os dedos das mãos, olhou para ela e fez-lhe prometer que, todos os dias sentar-se-ia junto a ela no jardim e, por cada história que lhe contasse, ela não iria chorar.

A partir dessa tarde e sempre que regressava da escola, o pequeno João sentava-se junto à Sra. Matilde no seu jardim e contava-lhe uma história diferente. Começou por contar as histórias do Zé do Pipo, pois eram aquelas que mais o animavam, ao contrário da Sra. Matilde que sorria, sendo incapaz de gargalhar com uma situação que já era considerada patológica. O Zé do Pipo precisava urgentemente de ajuda, apesar das várias tentativas não sucedidas de o internar no passado.

Vieram alguns dias chuvosos que não impediram a Sra. Matilde de convidar o João para se acomodar na sua sala pintada a branco e recheada de móveis dos anos 40. Neste cenário, o rapaz inspirou-se para contar algumas das histórias guardadas no baú do seu avô.

                – Sra. Matilde, sabia que no tempo do meu avô não se comia corn flakes na cantina? E que existem palavras com cor e sem cor? O meu avô costumava dizer que a palavra amor tem cor e que a palavra silêncio não tem cor.

A Sra. Matilde olhava perplexa para o rapaz. A única resposta que lhe conseguia dar era um simples sorriso. Para ele isso era mais do que carvão para o seu motor de contador de histórias. E todos os dias seguintes aquele sorriso simples, mas tão verdadeiro aumentava de intensidade.

Certo dia lembrou-se de lhe contar a história da caixa de fósforos do Quim Zé. O avô contara-lhe que o Quim Zé a tinha deixado abandonada na mesa de um café e que depois foi encontrada pela sua professora que a usou como objecto de um exercício na escola. Acto continuo e a Sra. Matilde recordou os seus tempos em que o Carménio Silva e a Anabela Roque Simões discutiram veemente, na sequência de um exercício que ela lhes tinha dado para criarem uma outra visão da história da Cinderela, pelos olhos da Drizela, sua irmã.

Numa manhã de Agosto, o sol brilhava de uma forma diferente. Era mês de férias e o João tinha combinado com a Sra. Matilde visitá-la quando regressasse de Lisboa com os pais onde iria passar uns dias em casa dos seus tios. Prometeu contar-lhe a história de uma tal chave que o seu avô encontrou dentro de uma garrafa de vidro, perdida entre as rochas do areal da única praia que visitou na sua longa vida. Dizia ele que essa chave tinha pertencido ao Capitão Trendy, o maior pirata de todos os tempos. Mas no dia em que João iria cumprir a sua promessa, a Sra. Matilde não estava à sua espera no jardim e quando bateu à porta também ninguém atendeu. Tocou insistentemente à campainha e não houve qualquer reacção vinda do interior da casa. Estranhando todo aquele silêncio, sentou-se na cadeira de baloiço que agora ali se encontrava abandonada no exterior da casa e olhou de forma profunda para as plantas do jardim da Sra. Matilde. Fechou os olhos e sorriu. As memórias do seu avô e dos tempos que passava na quinta turbilhavam na sua caixinha de memórias.

De repente, uma agitação exterior fê-lo regressar à realidade. À sua frente estava uma senhora idosa, de corpo encurvado para a frente e suportado por uma bengala na sua mão esquerda. Na direita segurava um envelope que lhe estendeu.

                – Menino João, a Sra. Matilde já não vive aqui. A filha veio buscá-la num destes dias mas ela deixou-lhe este envelope que me fez prometer que lho entregaria quando o menino regressasse das suas férias.

João estendeu a mão e segurou no envelope. Com as mãos trémulas abriu-o e retirou do interior uma folha branca escrita à mão: “João, não percas essa vivacidade de contar histórias. Quem não tem histórias para contar é porque não viveu. Quem tem histórias para contar tem a alma de encantar os outros, de os fazer abrir pequenos baús de memórias. Depois das minhas plantas me fazerem imergir num mar de memórias vieste tu encher-me de recordações. A nossa história é o somatório de pequenas histórias nossas e dos nossos e tu, tão pequenino, já estás a construir uma grande história. Obrigado por tudo.”

Depois de ler, dobrou novamente a folha e guardo-a no envelope. Olhou para a velha que se mantinha à frente dele, sedenta de saber o que estava escrito naquela carta e com um sorriso natural perguntou-lhe:

                – A senhora quer que eu lhe conte uma história? Sente-se aqui comigo.

E todos os dias o rapaz se sentava com aquela velha em frente ao jardim da Sra. Matilde contando-lhe as histórias do Zé do Pipo e as melhores do baú do seu avô.

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